Chef Vinícius Pires abre o Cena no Emiliano SP: cozinha brasileira contemporânea com alma de Bocuse d'Or
Após seis anos no Evvai e uma vitória no Bocuse d'Or nacional 2026, o chef Vinícius Pires estreia no Hotel Emiliano com um menu que cruza produto brasileiro e técnica europeia
Tem uma frase que o próprio Vinícius Pires costuma repetir: no Bocuse d'Or, metade da competição está em ler o regulamento com atenção. A outra metade é pura cozinha — execução no tempo, sabor, repetição. É exatamente esse equilíbrio entre disciplina técnica e respeito ao ingrediente que define o Cena, o restaurante inaugurado no Hotel Emiliano São Paulo na Rua Oscar Freire, 384.
Pires venceu a etapa nacional do Bocuse d'Or em 2026 — o concurso mais disputado da gastronomia profissional mundial — e chegou ao Emiliano direto desse pico de forma. Antes disso, foram seis anos no Evvai, o restaurante de Luiz Filipe Souza em Pinheiros, onde foi de auxiliar a chef de cozinha. Pelo caminho, passagens por cozinhas europeias e um estágio na Accademia Niko Romito, na Itália, além de uma temporada no Frantzén, em Estocolmo, restaurante três estrelas Michelin. Aos 29 anos, essa é a sua primeira casa própria — e o Emiliano apostou todas as fichas nessa escolha.
O espaço: Arthur Casas assina, cozinha aberta centraliza
O projeto arquitetônico é de Arthur Casas, o mesmo estúdio que assina o DNA do hotel. O coração do Cena é a cozinha aberta: o preparo dos pratos acontece diante dos clientes, sem separação entre salão e equipe. Cada prato que sai é, ao mesmo tempo, uma demonstração de trabalho. Os uniformes têm assinatura de Lenny Niemeyer — detalhe que diz muito sobre o posicionamento do Emiliano: tudo aqui é pensado com a mesma seriedade.
O Cena substitui o restaurante que levava o próprio nome do hotel. Mas não é uma repaginada — é uma mudança de postura. A ideia do Emiliano é transformar o endereço em um destino gastronômico da cidade, não apenas o restaurante interno de um hotel de luxo. Com Vinícius Pires, essa aposta ganha substância.
O menu: Brasil sem folclore
A carta não tenta soar brasileira. Ela simplesmente é — e isso faz toda a diferença. No almoço, a proposta é mais leve, com pratos construídos sobre frescor e precisão. A entrada de folhas com tangerina e queijo de cabra (R$ 67) abre bem o apetite, o crudo de atum com avocado e ora-pro-nóbis (R$ 75) mostra mão firme nos crudos, e o pescado com molho de moqueca e palmito pupunha (R$ 149) — que na visita de um crítico era um pargo — entrega delicadeza com personalidade.
À noite, o cardápio ganha densidade. A carne cruda com anchovas do Cantábrico e melão (R$ 118) é um diálogo direto com a tradição europeia de crudités, mas o coração do menu é a pasta com mandioquinha, vieira e tucupi (R$ 198): ingredientes amazônicos dentro de uma estrutura técnica italiana — exatamente o tipo de cruzamento que define o que Pires chama de cozinha contemporânea. O arroz de cogumelos com brócoli e cereja fermentada completa a noite com acidez e umami bem calibrados.
As sobremesas mantêm a coerência: babá au cachaça e maracujá (R$ 58) é a releitura mais brasileira possível de um clássico francês, e o entremet de leite com doce de leite e frangipane (R$ 62) encerra sem força — elegante, sem alarde.
A carta de bebidas foi desenvolvida pelo sommelier Luís Otávio Álvares Cruz, eleito Melhor Sommelier do Brasil em 2023, com foco em champanhes e vinhos brasileiros.
Por que ir
O Cena não é um restaurante de hotel que cobra pelo endereço. É um restaurante de chef — com toda a precisão e ponto de vista que isso implica — que acontece dentro de um dos melhores hotéis de São Paulo. Vinícius Pires chega ao Emiliano no auge de sua trajetória, com um menu que entrega técnica europeia aplicada a ingredientes brasileiros sem precisar explicar muito. Os preços são compatíveis com o padrão da hotelaria de luxo paulistana, mas o que você paga aqui é, antes de tudo, por cozinha.
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Fontes
