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Circuito Culinária da Terra: Como o MST está reinventando o boteco carioca

Festival conecta agricultura familiar e botecos do Rio com petiscos agroecológicos entre R$ 30-40

Pico Editorial·28 de maio de 2026

O caldinho de feijão manteiga ganha ora-pro-nóbis. O harumaki tradicional leva taioba no recheio. A polentinha cremosa vem acompanhada de quiabo fresquinho. Pode parecer exótico, mas é assim que o Rio está descobrindo uma nova face da gastronomia: a que conecta diretamente o campo à mesa do boteco, sem intermediários, sem agrotóxicos e com muito sabor.

A segunda edição do Circuito Cultural Culinária da Terra chegou com força total. De 22 de maio a 7 de junho, 18 bares cariocas — mais que o dobro da primeira edição — servem petiscos exclusivos preparados com ingredientes vindos diretamente dos assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no estado do Rio.

Um movimento que nasceu na conversa de boteco

A história começou em 2025 com uma ideia simples mas poderosa: e se os bares mais autênticos do Rio servissem ingredientes dos pequenos produtores rurais? A vereadora Maíra do MST (PT) e Vinícius Zamana, dono do Bar Botica em Botafogo, conversaram sobre isso e decidiram testar. O resultado foi tão positivo que este ano a proposta cresceu organicamente.

"Mais do que um festival gastronômico, o Circuito Culinária da Terra quer ser o ponto de partida para um caminho permanente de partilha entre o campo e a cidade", explica Maíra. E os números mostram que deu certo: a primeira edição vendeu 626 petiscos e movimentou 700 kg de alimentos. Para 2026, a expectativa é ainda maior.

O que você vai encontrar nos bares

Cada bar desenvolveu receitas próprias usando ingredientes como taioba, ora-pro-nóbis, milho, feijão, abóbora e mandioca — todos produtos da agricultura familiar sem agrotóxicos. Os preços ficam entre R$ 30 e R$ 40, mantendo o espírito democrático do boteco.

No Armazém Cardosão (Laranjeiras), o destaque é o Harumaki de taioba e bacon com molho picante de goiabada — uma fusão que funciona perfeitamente. No Bar da Frente (Praça da Bandeira), a Polentinha Cremosa com Frango e Quiabo transforma ingredientes simples em algo especial. Já no Baixela (Copacabana), a Galinhada Constitucional usa arroz cateto branco e milho verde dos assentamentos.

O Armazém do Campo na Lapa, que já é referência em produtos do MST, oferece três opções: bolinho caipira, bolinho de abóbora e uma versão vegana, além de uma caipirinha autoral.

Por que isso importa (muito)

Esse movimento vai muito além dos petiscos. Estudos da USP mostram que plantas como ora-pro-nóbis e taioba são ricas em minerais essenciais como ferro, cobre, zinco, manganês, cálcio, magnésio, fósforo e potássio. Em termos de proteína, o ora-pro-nóbis e a taioba superam em quantidade o espinafre comum, provando que a biodiversidade brasileira tem potencial nutricional subestimado.

Mas há também um impacto econômico direto: 30% da arrecadação com a venda dos petiscos vai diretamente para os assentamentos participantes, fortalecendo a agricultura familiar. Mais de 50 mil famílias do MST implementam atualmente práticas agroecológicas, e iniciativas como essa ampliam o escoamento da produção.

A revolução silenciosa dos ingredientes

A taioba tem sabor suave e levemente terroso, textura macia quando cozida e é rica em vitaminas A e C, ferro, cálcio e fibras. O ora-pro-nóbis, conhecido como "carne de pobre", na verdade ganhou destaque por seus benefícios à saúde e potencial nutricional, sendo facilmente encontrado em supermercados que vendem orgânicos.

Esses ingredientes não são novidade — sua presença expressa territorialidades ligadas à alimentação tradicional e cultivo familiar. O que muda é vê-los nos cardápios de bares como Baródromo (Maracanã), Casa Porto (Porto Maravilha), Conserva Bar (Copacabana) e Os Imortais (Copacabana).

Um selo de compromisso

Os bares participantes ganham um selo de certificação criado pelo festival, identificando estabelecimentos comprometidos com a agricultura familiar e alimentos livres de agrotóxicos. É uma forma de criar uma rede permanente que vai além dos dias de festival.

A deputada estadual Marina do MST (PT) resume bem: "Esses bares fazem parte do mapa boêmio da capital e, através deles, mais gente vai poder conhecer a qualidade e os sabores dos alimentos produzidos pela Reforma Agrária".

O futuro da gastronomia consciente

Esta edição acontece diariamente durante todo o período do festival — diferente de 2025, quando era só nos fins de semana. A programação começou no Miudinho (Maracanã) e se espalha por botecos tradicionais de Laranjeiras a Copacabana, da Lapa ao Centro.

O movimento representa algo maior: o programa Comida de Verdade do MST prega a soberania alimentar e coloca o alimento como memória, cultura e afeto, devendo ser produzido com igualdade e justiça. No contexto urbano dos botecos cariocas, essa filosofia ganha uma tradução prática e saborosa.

Por que ir: porque cada petisco carrega uma história de sustentabilidade, sabor autêntico e conexão direta entre quem produz e quem consome. É boteco com propósito, sem perder a essência.

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